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19 de Fevereiro de 2020

Memória: Há 30 anos, primeira vitória expressiva da equipe do LNLS.

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Em 19 de fevereiro de 1990, o LNLS inaugurava o LINAC da primeira fonte de luz síncrotron do Hemisfério Sul.


Assim começava um comunicado para a imprensa que divulgava a cerimônia prevista para 19 de fevereiro, comemorativa da conclusão da primeira etapa de implantação do LNLS. O objetivo do que ocorreria naquele dia era afirmar junto à sociedade, em especial à comunidade científica, que a equipe de jovens entusiastas, reunida a partir de final de 1986, já reunia competência para desenvolver, construir e vir a operar a primeira fonte de luz síncrotron do hemisfério sul – objetivo central e motivador da criação do Laboratório.

Jornais de Campinas, em 18 de fevereiro, destacavam a inauguração do acelerador linear de elétrons, bom sinal de que a cobertura do evento seria bastante adequada, como de fato ocorreu. Na foto de Julio César Costa, publicada no Diário do Povo, Ricardo Rodrigues examina um componente do acelerador linear de elétrons.

O LNLS começara a ser implantado efetivamente no início de 1987. Uma casa na rua Girassol, no bairro Santa Cândida, zona urbana de Campinas, era a “sede”. A partir de junho, um galpão de 1.400 metros quadrados comprado pelo CNPq, a meio quilômetro da casa, passaria a acomodar a equipe. Mas o espaço era exíguo para abrigar todas as atividades técnicas, que incluíam desenvolver protótipos de componentes para a fonte de luz. A “solução” foi alugar um terreno contíguo e ali, num galpão pré-moldado de alumínio, se instalou o acelerador linear de elétrons, construído pela equipe pioneira do LNLS em dois anos e meio. Daquele período pioneiro participaram inúmeros físicos, engenheiros, técnicos, administradores, muitos deles ainda atuantes no campus do CNPEM.

Galpão à direita, com 1.400 metros quadrados, passou a sediar o LNLS em junho de 1988. O galpão menor, à esquerda, foi montado em terreno alugado, solução encontrada para montar o acelerador linear de elétrons, numa versão curta, de 10 metros de comprimento. Foto de Carlos Scorzato, outubro 1990

A cerimônia foi marcada para às 10:30 horas. Anunciou-se a presença do Presidente da República, José Sarney, que deixaria o cargo dia 15 de março (era a data em que tomava posse o candidato eleito em outubro do ano anterior). Por volta do dia 17 de fevereiro, a vinda do presidente ainda era incerta e acabou não se confirmando. Compareceram o Ministro da Ciência e Tecnologia, Décio Leal de Zagottis, do Presidente do CNPq, Crodowaldo Pavan, e, também do Diretor-Geral do CERN – Laboratório Europeu de Física de Partículas, Carlo Rubbia, Prêmio Nobel de Física em 1984. Inúmeros outros dirigentes importantes também estiveram presentes, dentre eles o ex-ministro Renato Archer, que tão logo assumiu o Ministério da Ciência e Tecnologia, em 15 de março de 1985, criou condições objetivas para deslanchar a implantação do LNLS.

Sentados, da ponta esquerda para a direita, estão: Paulo Renato de Souza, reitor da Unicamp; Renato Archer, primeiro ministro da Ciência e Tecnologia (1985-1989); Oscar Salla, físico e presidente da Academia Brasileira de Ciências; Carlo Rubbia, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1984 e diretor do CERN – Laboratório Europeu de Física de Altas Energias; Rogério Cesar de Cerqueira Leite, presidente do Conselho Diretor do LNLS; Crodowaldo Pavan, geneticista e presidente do CNPq; Décio Leal de Zagottis, Ministro da Ciência e Tecnologia; Luiz Gonzaga Belluzzo, secretário da Ciência e Tecnologia do governo do Estado de São Paulo; Roberto Lobo, sob cuja direção no CBPF deu-se início ao Projeto Radiação Síncrotron (PRS); Roberto Salmeron, físico radicado na França e membro do Conselho Diretor do LNLS, partícipe da fase inicial do projeto. Foto sem autor identificado. 19.2.1990

A primeira página do Diário do Povo publicou uma foto que dá uma visão quase total dos convidados que participaram da cerimônia do dia 19 de fevereiro de 1990. E destacava que, para concluir o LNLS, eram necessários mais 30 milhões de dólares nos próximos quatro anos.

O comunicado para a imprensa esclarecia que o acelerador linear é “um equipamento com a finalidade de dar energia a partículas subatômicas que, além de permitir a realização de variada gama de pesquisas de materiais, é também um componente indispensável para o funcionamento de um acelerador circular, o primeiro do hemisfério sul, que está sendo projetado no próprio LNLS e será construído nos próximos quatro anos.”

No artigo “Síncrotron – a primeira luz”, publicado na edição nº 62 da revista Ciência Hoje, em março de 1990, o diretor do LNLS, Cylon Gonçalves da Silva, destacava: “A etapa concluída demonstra que é possível, para uma equipe brasileira, dentro de prazos competitivos em nível internacional, projetar e construir um equipamento cujas dimensões modestas escondem uma grande complexidade”. E descrevia todos os subsistemas que compunham o acelerador linear, desenvolvidos pela equipe cuja idade média não ultrapassava os 27 anos. O líder da equipe técnica era Ricardo Rodrigues, na época com 36 anos.

Caberia ao presidente do CNPq, Crodowaldo Pavan, ao qual o LNLS era então vinculado, apertar o botão que colocou em funcionamento o LINAC. Ao seu lado, Decio Leal, Ministro da Ciência e Tecnologia. Foto sem autor identificado. 19.2.1990

O acelerador linear de elétrons – com 10 metros de comprimento e energia de 50 MeV (milhões de elétron-volts) operou na sede provisória até 6 de junho de 1995. No dia seguinte, começou a ser desmontado e trasladado para o campus definitivo do LNLS. Agora em versão definitiva com 18 metros de comprimento e energia de 100 MeV, o acelerador linear cumpriria a função de injetar feixe de elétrons no anel de armazenamento de elétrons de 93 metros de circunferência, formando o conjunto chamado de fonte de luz síncrotron. Até o encerramento da operação da fonte, em junho de 2019, o acelerador linear de elétrons (posicionado no subsolo do prédio do anel) cumpriu seu objetivo no equipamento pioneiro do LNLS que propiciou, por quase 23 anos, a realização de milhares de experimentos científicos.

O espaço no qual foi montado o acelerador linear de elétrons era tão exíguo que não havia jeito de fotografá-lo integralmente. A foto mostra o primeiro estágio, com solenoides, e, à direita o canhão de elétrons, estágio inicial da produção do feixe de elétrons. Ao final do trajeto, o feixe batia num anteparo de chumbo. Esta foto tornou-se uma espécie de “cartão postal” do LNLS e foi usada por dezenas de publicações durante vários anos. Foto de Luis Câmara, MCT, 1990

Isso era, exatamente, o que se previa no artigo publicado na Ciência Hoje, que relatava o fato motivador daquela simbólica cerimônia de 19 de fevereiro de 1990, no galpão do bairro Santa Cândida: “O Laboratório já é um centro de desenvolvimento da tecnologia de aceleradores de partículas. Em quatro anos, será um Laboratório Nacional dedicado à pesquisa avançada em materiais, aberto a pesquisadores das mais variadas instituições brasileiras, como idealizado por Roberto Lobo e colaboradores. Também atuará como um centro internacional, aberto a pesquisadores de todo o mundo e, em particular, da América Latina”.

A sala de controle da operação do LINAC era um dos locais mais visitados na sede provisória do LNLS. Durante o 2º Painel de Revisão do Projeto da Fonte de Luz Síncrotron, com renomados especialistas vindos do Exterior, o funcionamento do LINAC foi bastante elogiado. Na foto, observa-se a vibração de todos ao verificar a imagem do feixe no monitor. Foto de Roberto Medeiros, 26 de julho de 1991

As circunstâncias políticas e econômicas do país – mais do que as adversidades técnicas inerentes a um projeto de elevada complexidade tecnológica – contribuíram para dilatar o prazo citado de quatro anos. Foram necessários um pouco mais de seis anos para declarar concluído o projeto de implantação do LNLS, com a abertura ao uso por pesquisadores da primeira fonte de luz síncrotron construída no hemisfério sul, fato que ocorreu em 2 de julho de 1997, mas isso é outra memória a ser relembrada.

No dia 20 de fevereiro de 1990, a cerimônia realizada no LNLS estava em jornais de Campinas, Rio de Janeiro, São Paulo. Os cinco principais jornais brasileiros da época noticiaram o fato: Gazeta Mercantil (SP), Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e o Globo (RJ). Emissoras de TV também fizeram reportagens destacando o fato. Os jornais de Campinas, Diário do Povo e o Correio Popular, deram amplo espaço ao tema. A reprodução é do Correio Popular, página 3, edição de 20.2.1990.

Roberto Medeiros

Esta foi minha primeira tarefa como Assessor de Comunicação do LNLS. Coincidência ou não, meu número de registro profissional é 13.223 e só agora, ao escrever essa MEMÓRIA, dei-me conta da data do Comunicado para a Imprensa: 13 de fevereiro (2).